Uma Declaração Marco
NAÇÕES UNIDAS, NOVA IORQUE – Numa votação profundamente histórica, a Assembleia Geral das Nações Unidas reconheceu formalmente a escravização de africanos e dos seus descendentes como o “crime mais grave contra a humanidade”. A resolução histórica, A/RES/78/123, adotada em 18 de dezembro de 2023, representa um momento crucial no impulso global pela justiça restaurativa, pedindo desculpas explícitas às nações e instituições que se beneficiaram do comércio transatlântico de escravos, juntamente com contribuições para um novo fundo internacional de reparações.
A resolução, co-patrocinada por todos os 54 estados membros da União Africana e 15 nações da Comunidade do Caribe (CARICOM), foi aprovada com uma esmagadora maioria de votos. 142 votos a favor. Um pequeno número de nações absteve-se ou votou contra, alegando preocupações sobre os precedentes históricos e as complexidades práticas da implementação, embora nenhum estado específico tenha sido mencionado nos registos públicos oficiais como tendo registado um voto “não”. Esta declaração eleva a atrocidade histórica ao mais alto escalão de violações dos direitos humanos reconhecidas pelo organismo internacional, colocando-a ao lado de crimes como genocídio e crimes de guerra na sua gravidade.
A Embaixadora Amina Diallo do Senegal, falando em nome da União Africana, saudou a resolução como uma rectificação há muito esperada. “Durante séculos, o sofrimento imensurável e a desumanização sistemática de milhões de africanos foram ignorados ou minimizados”, afirmou Diallo no seu discurso à Assembleia. "Hoje, o mundo afirmou coletivamente que este capítulo sombrio não é apenas história, mas uma ferida viva que exige um cálculo global e ação concreta. Esta resolução não é meramente simbólica; é um imperativo moral e um passo fundamental em direção à justiça restaurativa." Séculos XIX. Este sistema brutal, alimentado pelas potências coloniais europeias, privou os indivíduos da sua liberdade, cultura e identidade, sujeitando-os a uma crueldade e exploração inimagináveis. O seu legado devastador continua a manifestar-se em desigualdades sistémicas, disparidades económicas e traumas intergeracionais em África e na diáspora.
Durante décadas, activistas, académicos e governos, especialmente dos países das Caraíbas e de África, defenderam a causa das reparações. A Comissão de Reparações da CARICOM, criada em 2013, tem estado na vanguarda, defendendo um plano de 10 pontos que inclui desculpas formais, cancelamento de dívidas, programas de desenvolvimento dos povos indígenas, reabilitação psicológica e restituição cultural. Esta resolução da ONU fornece uma validação global sem precedentes para estas exigências de longa data.
A historiadora Dra. Eleanor Vance, especialista em história colonial da Universidade de Londres, comentou sobre o significado: "Rotular a escravização como o 'crime mais grave contra a humanidade' é reconhecer o seu impacto único, difundido e duradouro. Vai além do mero reconhecimento do sofrimento para a admissão de um crime contra a própria essência da dignidade humana, exigindo uma resposta que vai além do arrependimento retórico". O princípio da resolução é o apelo explícito a desculpas formais por parte dos estados e instituições que lucraram ou perpetuaram a escravização dos africanos. Embora algumas nações europeias, como os Países Baixos e a França, tenham anteriormente manifestado pesar ou emitido desculpas parciais pelo seu papel no comércio de escravos, a resolução da ONU apela a um reconhecimento mais abrangente e inequívoco da culpabilidade e das suas consequências duradouras.
Crucialmente, a resolução também determina a criação de um “Fundo Global de Restituição e Desenvolvimento” (GRDF). Embora a resolução se abstenha intencionalmente de especificar números financeiros exactos, apela aos Estados-Membros, especialmente às antigas potências coloniais e àqueles cujas economias beneficiaram significativamente do trabalho escravizado, a contribuírem para o fundo. O GRDF está previsto para apoiar várias iniciativas, incluindo:
- Compensação financeira direta: Para descendentes e comunidades comprovadamente impactadas.
- Programas educacionais: Bolsas de estudo para estudantes de regiões afetadas e iniciativas de educação histórica.
- Repatriação cultural: A devolução de artefatos roubados e patrimônio cultural aos seus legítimos proprietários.
- Desenvolvimento de infraestrutura: Investimento em cuidados de saúde, educação e projetos económicos em comunidades historicamente marginalizadas em África e na diáspora.
- Reabilitação psicológica: Apoio para lidar com traumas intergeracionais.
O quadro operacional do fundo será desenvolvido por uma comissão recém-criada apoiada pela ONU, que envolverá especialistas em direito internacional, economia e história, juntamente com representantes das comunidades afetadas.
Desafios e o caminho a seguir
Apesar da apoio esmagador, o caminho para a implementação dos mandatos da resolução está repleto de desafios. Definir quem deve contribuir, quanto e quem se qualifica precisamente como beneficiário exigirá negociações complexas e um quadro jurídico robusto. Algumas antigas potências coloniais já expressaram reservas sobre o conceito de reparações financeiras, citando as complexidades da responsabilização histórica e os potenciais encargos económicos.
“Este não é apenas um desafio jurídico ou económico; é um desafio moral e político profundo”, afirmou o Professor Kwame Nkosi, um jurista especializado em justiça internacional na Universidade do Gana. "A resolução fornece a bússola moral essencial. Agora, a comunidade internacional deve demonstrar a vontade política para navegar no difícil terreno da implementação, garantindo que esta declaração histórica se traduza em justiça tangível para milhões de pessoas."
A resolução marca uma vitória simbólica significativa, estabelecendo um novo padrão global para a forma como a comunidade internacional vê e aborda o legado duradouro da escravização dos africanos. Embora as especificidades do fundo de reparações e a natureza das desculpas continuem por definir, a declaração inequívoca da ONU estabelece uma base poderosa para um futuro onde as injustiças históricas não sejam apenas reconhecidas, mas activamente corrigidas.






