"Horror Visceral" no Ardestão
GENEBRA – O Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, emitiu um forte apelo aos Estados Unidos para que concluam rapidamente a sua investigação sobre um ataque aéreo devastador no Irão que custou a vida a pelo menos 168 pessoas, predominantemente crianças. O incidente, que Türk descreveu como evocando um “horror visceral”, ocorreu em 27 de outubro de 2023, atingindo a Escola Primária Al-Ghadir, na periferia rural de Ardestan, província de Isfahan.
As autoridades iranianas relataram que 142 crianças, com idades entre 6 e 11 anos, e 26 adultos, incluindo professores e funcionários da escola, morreram no ataque matinal. Testemunhas descreveram uma cena de devastação total, com o prédio da escola reduzido a escombros e as equipes de emergência lidando com um grande número de vítimas. O governo iraniano condenou veementemente o ataque como um ato de terrorismo de Estado e uma grave violação do direito internacional, exigindo responsabilidade internacional imediata.
Apelo Urgente de Transparência de Türk
Numa declaração divulgada em 15 de novembro, Türk sublinhou a importância primordial da adesão ao direito humanitário internacional, particularmente os princípios de distinção e proporcionalidade. “A escolha de uma escola, um santuário para crianças, é um ato flagrante que exige a mais total transparência e responsabilidade”, afirmou Türk. “Os Estados Unidos devem fornecer um relato abrangente, imparcial e público deste incidente, detalhando as circunstâncias operacionais, a inteligência utilizada e, principalmente, como ocorreu uma perda tão catastrófica de vidas civis.”
O Alto Comissário sublinhou que sem uma investigação exaustiva e credível, a confiança da comunidade internacional no compromisso de proteger os civis em conflitos armados seria gravemente desgastada. O seu gabinete destacou que os ataques a instalações educativas, especialmente aqueles que resultam em mortes em massa de crianças, constituem potenciais crimes de guerra, necessitando de um escrutínio rigoroso ao abrigo do direito internacional.
Os EUA reconhecem a investigação no meio de tensões regionais
Na sequência do ataque, o Pentágono inicialmente fez comentários limitados. No entanto, na sequência da crescente pressão internacional e de relatórios detalhados de organizações humanitárias como a Amnistia Internacional, que documentaram as extensas vítimas civis, as autoridades dos EUA confirmaram que estava em curso uma revisão interna. O porta-voz do Pentágono, brigadeiro-general Mark Caldwell, declarou em uma coletiva de imprensa em 8 de novembro: "Estamos cientes das alegações e estamos conduzindo uma avaliação completa de nossas operações na região durante esse período. Os Estados Unidos levam a sério todas as acusações de danos civis e aderem aos mais altos padrões de mira de precisão."
Embora não confirme explicitamente a responsabilidade pelo ataque a Al-Ghadir, a declaração de Caldwell reconheceu implicitamente a possibilidade do envolvimento dos EUA. Fontes não oficiais da comunidade de defesa dos EUA, falando anonimamente, sugeriram que se acreditava que o alvo pretendido era uma instalação clandestina de montagem de drones da Guarda Revolucionária, localizada nas proximidades da escola. Esta afirmação, no entanto, foi ferozmente contestada pelo Irão, que afirma que não existiam tais instalações no local e que a escola era claramente identificável como uma estrutura civil.
Navegando pelo Direito Internacional e pela Responsabilidade
O incidente no Ardestão reacendeu debates cruciais em torno do direito humanitário internacional, particularmente no que diz respeito à protecção de civis e de infra-estruturas civis em zonas de conflito. Os princípios da distinção exigem que os combatentes distingam entre objectivos civis e objectivos militares, e entre civis e combatentes, dirigindo os ataques apenas contra objectivos militares. O princípio da proporcionalidade proíbe ataques que se espera que causem perdas acidentais de vidas civis, ferimentos em civis ou danos em bens civis, o que seria excessivo em relação à vantagem militar concreta e direta prevista.
Os peritos jurídicos argumentam que, mesmo que um alvo militar legítimo estivesse próximo, a escala das baixas civis, especialmente entre as crianças, levanta sérias questões sobre se estes princípios foram respeitados. O apelo do Gabinete dos Direitos Humanos da ONU para uma investigação completa visa estabelecer se a devida diligência foi exercida e se ocorreram quaisquer violações do direito internacional. Caso a investigação confirme a responsabilidade dos EUA e o não cumprimento destes princípios, poderá desencadear pedidos de indemnização para as vítimas e potencialmente levar a ações legais em tribunais internacionais.
Um teste ao compromisso global com os direitos humanos
Os trágicos acontecimentos na Escola Primária Al-Ghadir servem como um duro lembrete do custo humano devastador do conflito armado e da importância crítica da responsabilização. Com as relações EUA-Irão a permanecerem profundamente tensas e as tensões regionais a aumentarem, o resultado desta investigação tem um peso geopolítico significativo. A comunidade internacional, liderada pelo Gabinete dos Direitos Humanos da ONU, está a observar atentamente para ver se os Estados Unidos cumprirão o seu compromisso com a transparência e a justiça. Para as famílias no Ardestão, que ainda sofrem com o “horror visceral”, a exigência de respostas e responsabilização não é apenas uma formalidade legal, mas um profundo imperativo moral.






