A desvantagem imprevista de uma bebida no fim da noite
Para muitos, um café tarde da noite é um ritual, um impulso à energia através de prazos, estudos noturnos ou simplesmente para desfrutar de um momento de tranquilidade. No entanto, uma nova investigação da Universidade de Genebra sugere que este hábito aparentemente inócuo pode ter um lado negativo inesperado e preocupante: aumento da impulsividade e propensão para comportamentos de risco. Além disso, o estudo indica que as mulheres podem ser significativamente mais suscetíveis a esses efeitos.
Publicado no início de maio de 2024 na conceituada revista Neuroscience & Behavior, o estudo inovador, liderado pela Dra. Anya Sharma e sua equipe do Institute for Circadian Neuroscience, examinou os efeitos do timing da cafeína na tomada de decisões de moscas-das-frutas (Drosophila melanogaster). Embora as moscas-das-frutas possam parecer um proxy incomum para o comportamento humano, suas vias genéticas e neurais compartilham semelhanças surpreendentes com as nossas, tornando-as modelos valiosos para a compreensão de processos biológicos complexos, incluindo aqueles relacionados aos ritmos circadianos e à neurotransmissão.
“Há muito que entendemos que a cafeína afeta o estado de alerta, mas sua interação com nossos ritmos noturnos naturais e os efeitos subsequentes na função executiva são menos explorados”, explica o Dr. “Nossas descobertas sugerem que o momento da ingestão de cafeína é crucial, alterando potencialmente a química do cérebro de forma a encorajar ações mais impulsivas e menos ponderadas, especialmente quando consumida contra o período natural de ‘relaxamento’ do corpo.”
A Experiência Noturna com Cafeína
A pesquisa envolveu milhares de moscas da fruta, meticulosamente divididas em grupos. Um grupo recebeu uma dose controlada de cafeína durante o período diurno ativo, outro recebeu a mesma dose durante a fase noturna inativa e um grupo controle não recebeu cafeína. As moscas foram então submetidas a uma série de testes comportamentais destinados a avaliar a impulsividade e a avaliação de risco. Esses testes incluíram a navegação em labirintos com rotas “seguras”, porém mais longas, versus rotas “arriscadas”, porém mais curtas, e situações em que ignorar sinais de alerta específicos levava a consequências adversas, embora não letais.
Os resultados foram surpreendentes. As moscas da fruta que receberam cafeína durante as horas normais de descanso exibiram um aumento significativo de 22% nas escolhas arriscadas em comparação com o grupo de controle. Eram notavelmente mais propensos a desconsiderar os sinais de alerta estabelecidos e a optar pelo caminho mais rápido e mais perigoso. Em contraste, as moscas que receberam cafeína durante o dia não apresentaram alterações estatisticamente significativas no seu comportamento de risco. Essa forte diferença diurna ressalta o papel crítico do tempo circadiano na forma como a cafeína afeta o cérebro.
“A diferença foi gritante”, observa o Dr. Ben Carter, coautor do estudo. “A cafeína diurna parecia melhorar o foco sem comprometer o julgamento, mas a cafeína noturna parecia desalojar os mecanismos de controle inibitório, levando a uma abordagem mais do tipo 'aja primeiro, pense depois'.”
Uma resposta de gênero aos estimulantes noturnos
Talvez a descoberta mais convincente do estudo tenha sido a pronunciada diferença de gênero em resposta à cafeína noturna. As moscas-das-frutas fêmeas mostraram uma sensibilidade quase 30% maior aos efeitos indutores de impulsividade da cafeína noturna em comparação com os machos. Isto significa que, para a mesma dose, as moscas fêmeas eram significativamente mais propensas a tomar decisões arriscadas.
Embora os mecanismos exatos por detrás desta disparidade de género nas moscas da fruta ainda estejam sob investigação, os investigadores levantam a hipótese de que poderá estar ligado a diferenças no metabolismo da cafeína, nos níveis hormonais ou na expressão de certos recetores de neurotransmissores. “Nos humanos, sabemos que existem diferenças fisiológicas na forma como homens e mulheres processam a cafeína e respondem às perturbações do sono”, explica o Dr. “Este modelo de mosca-das-frutas oferece um caminho fascinante para explorar essas interações diferenciadas específicas de gênero em um nível fundamental.”
Esta descoberta tem particular relevância, uma vez que muitas vezes é relatado que as mulheres apresentam taxas mais altas de distúrbios do sono e ansiedade, condições que podem ser exacerbadas pela cafeína, especialmente quando consumida no final do dia. as implicações do estudo são significativas demais para serem ignoradas. A cafeína, consumida por cerca de 80% dos adultos em todo o mundo, é a substância psicoativa mais utilizada no mundo. Uma xícara de café padrão de 240 ml normalmente contém entre 95-200 mg de cafeína, e seus efeitos podem durar horas.
A pesquisa acrescenta uma camada crítica à nossa compreensão do impacto da cafeína, indo além do simples estado de alerta para sua influência potencial na tomada de decisões complexas. A interrupção do ritmo circadiano natural, o que inegavelmente ocorre com a ingestão de cafeína tarde da noite, tem sido associada em vários estudos em humanos ao comprometimento da função cognitiva, distúrbios do humor e aumento da assunção de riscos. Este novo estudo sugere que a cafeína pode amplificar estes efeitos diretamente, em vez de apenas indiretamente através da privação de sono.
Para indivíduos que consomem cafeína frequentemente à noite, seja por motivos de trabalho, sociais ou simplesmente por hábito, estas descobertas sugerem uma necessidade de introspecção. Poderia aquele café noturno estar influenciando sutilmente o julgamento quando confrontado com decisões complexas, riscos financeiros ou até mesmo interações sociais?
Além da agitação: entendendo a impulsividade e pesquisas futuras
A equipe de Genebra planeja expandir sua pesquisa para investigar as vias neurais específicas e os neurotransmissores envolvidos nesta impulsividade noturna induzida pela cafeína. O seu objectivo é identificar se a dopamina, a serotonina ou outras substâncias químicas cerebrais são particularmente afectadas, o que poderá abrir portas para futuras intervenções ou recomendações personalizadas.
Entretanto, o estudo fornece uma razão convincente para reconsiderar aquela chávena de café à noite, especialmente para as mulheres. "Nossos relógios internos estão bem ajustados. A introdução de um estimulante poderoso como a cafeína quando o corpo espera relaxar pode ter efeitos em cascata que estamos apenas começando a entender", aconselha o Dr. “Prestar atenção em quando consumimos cafeína pode ser tão importante quanto a quantidade que consumimos, especialmente quando decisões críticas se aproximam.”






