Uma nova fronteira na prevenção cardiovascular
GENEBRA – Um estudo inovador apresentado no congresso anual da Sociedade Europeia de Cardiologia em Barcelona, em 15 de outubro de 2023, está preparado para reformular estratégias de prevenção de ataques cardíacos e derrames. Os investigadores anunciaram que o evolocumab, um poderoso medicamento para baixar o colesterol, reduz significativamente o risco de primeiros eventos cardiovasculares em pacientes diabéticos de alto risco, mesmo antes de quaisquer sinais tradicionais de acumulação de placa arterial serem detectáveis. As descobertas, publicadas simultaneamente no The Lancet, marcam uma mudança substancial em direção a uma intervenção proativa para uma população vulnerável. Normalmente prescrito para indivíduos que já têm doença cardiovascular estabelecida ou níveis de colesterol muito elevados resistentes a outros tratamentos, a nova eficácia demonstrada do evolocumabe na prevenção primária para diabéticos é uma virada de jogo. O medicamento, comercializado como Repatha, alcançou uma redução impressionante de 31% nos principais eventos cardiovasculares adversos (MACE), incluindo ataque cardíaco não fatal e acidente vascular cerebral, neste grupo específico de pacientes.
Desvendando o ensaio DIAMOND-PREVENT
O estudo, denominado ensaio DIAMOND-PREVENT, acompanhou meticulosamente mais de 10.000 pacientes diabéticos de alto risco em 15 países por uma média de quatro anos. A cardiologista-chefe e investigadora principal, Dra. Anya Sharma, do Instituto Global de Saúde Cardiovascular de Genebra, enfatizou o foco único do estudo. “Durante anos, nossos esforços de prevenção primária basearam-se em grande parte no gerenciamento dos fatores de risco e no início do tratamento assim que apareceram os primeiros sinais de aterosclerose”, explicou a Dra. Sharma durante sua apresentação. "O que o DIAMOND-PREVENT mostra é que, para diabéticos de alto risco, podemos intervir muito mais cedo, prevenindo a cascata inicial de eventos antes mesmo que eles se manifestem como placa detectável."
Os participantes do estudo, todos vivendo com diabetes tipo 2 e possuindo fatores de risco cardiovascular adicionais, mas sem histórico prévio de ataque cardíaco ou acidente vascular cerebral, foram designados aleatoriamente para receber evolocumabe ou um placebo, além de seu tratamento padrão, que muitas vezes incluía estatinas. O evolocumabe, um inibidor da PCSK9, atua bloqueando uma proteína chamada PCSK9, que normalmente degrada os receptores de LDL (lipoproteína de baixa densidade) no fígado. Ao bloquear o PCSK9, mais receptores de LDL ficam disponíveis, levando a uma eliminação muito maior do colesterol “ruim” da corrente sanguínea. Os pacientes que tomaram evolocumabe no estudo alcançaram uma redução média de LDL-C de mais de 65% em relação ao valor basal.
O papel crítico do diabetes nas doenças cardíacas
A diabetes é um factor de risco independente bem estabelecido para doenças cardiovasculares, aumentando significativamente a probabilidade de ataques cardíacos, acidentes vasculares cerebrais e outros problemas circulatórios. O nível elevado crónico de açúcar no sangue associado à diabetes danifica os vasos sanguíneos e os nervos ao longo do tempo, contribuindo para a inflamação e acelerando o processo aterosclerótico – o endurecimento e estreitamento das artérias devido à acumulação de placas. Esse dano pode começar muito antes do aparecimento dos sintomas ou antes que a placa seja visível nos exames de imagem.
"Os pacientes diabéticos apresentam um risco silencioso e elevado", comentou o Dr. Ben Carter, diabetologista e coautor do estudo do Centro Internacional de Pesquisa em Diabetes. "Seus sistemas vasculares estão frequentemente sob cerco, mesmo sem sinais evidentes. Este estudo nos dá uma ferramenta potente para abordar essa vulnerabilidade subjacente de forma proativa, indo além do manejo reativo para a verdadeira prevenção primária para esta população." Embora altamente eficazes, podem nem sempre ser suficientes para os pacientes de maior risco, ou alguns pacientes podem apresentar efeitos colaterais. O evolocumab oferece uma estratégia alternativa ou aditiva, especialmente para aqueles que necessitam de uma redução mais agressiva do LDL-C ou que não toleram estatinas.
Os resultados do DIAMOND-PREVENT sugerem que as diretrizes de tratamento para pacientes diabéticos de alto risco podem precisar ser revisadas para considerar o uso mais precoce e mais amplo de inibidores de PCSK9. No entanto, os especialistas alertam que o custo do evolocumab, que é significativamente mais elevado do que as estatinas genéricas, será um factor crítico na sua ampla adopção e acessibilidade, especialmente em sistemas de saúde com recursos limitados.
Perspectivas dos especialistas e implicações futuras
Dr. Liam O'Connell, chefe de investigação cardiovascular da London School of Medicine, que não esteve envolvido no estudo, ofereceu uma perspectiva equilibrada. "O ensaio DIAMOND-PREVENT é inegavelmente emocionante. Ele fornece evidências robustas para uma abordagem direcionada e agressiva em um grupo de risco muito alto", afirmou o Dr. O'Connell. "No entanto, devemos considerar cuidadosamente o custo-benefício para populações mais amplas e garantir que o acesso seja equitativo. Mais dados do mundo real e estudos de longo prazo sobre o impacto económico serão cruciais à medida que integramos estas descobertas na prática clínica." A mensagem é clara: para pacientes diabéticos de alto risco, uma intervenção mais agressiva e precoce com medicamentos como o evolocumabe pode ser a chave para evitar ataques cardíacos e derrames pela primeira vez, mudando fundamentalmente a forma como abordamos a saúde cardíaca no século XXI.






