Um flagelo silencioso rivaliza com assassinos infecciosos
NAIROBI, Quénia – Durante décadas, o foco da comunidade global de saúde em África centrou-se legitimamente no combate a doenças infecciosas como a malária, o VIH/SIDA e a tuberculose. No entanto, uma epidemia silenciosa e insidiosa está a ganhar terreno rapidamente, ameaçando redefinir o panorama da saúde no continente: a diabetes. As mortes atribuídas à diabetes começam agora a rivalizar com as causadas por estas ameaças infecciosas de longa data, apanhando muitos desprevenidos e expondo lacunas críticas nas infra-estruturas de saúde.
Um relatório recente do escritório africano da Organização Mundial de Saúde, publicado no final de 2023, destacou um aumento surpreendente de 40% na mortalidade relacionada com a diabetes em toda a África Subsariana desde 2010. As projecções são sombrias, sugerindo que o número de africanos que vivem com diabetes poderá aumentar de cerca de 24 milhões actualmente. para 55 milhões até 2045, de acordo com a Federação Internacional de Diabetes. Este aumento alarmante não se deve apenas a mudanças no estilo de vida nos centros urbanos; é uma crise complexa exacerbada pela pobreza, pela falta de acesso a cuidados de saúde e, de forma perturbadora, por uma forma recentemente reconhecida ligada diretamente à desnutrição.
Dr. Asha Nkosi, Diretora do Instituto de Doenças Tropicais de Nairobi, tem falado abertamente sobre a crise iminente. “Fomos tão condicionados a pensar na diabetes como uma 'doença da riqueza', ligada a estilos de vida sedentários e alimentos processados”, explica o Dr. "Mas em África, estamos a assistir a um quadro muito mais matizado e, francamente, mais devastador. É um fardo duplo, onde tanto a subnutrição como a sobrenutrição emergente contribuem para uma tempestade perfeita." Este não é o clássico Tipo 1 ou Tipo 2, mas uma condição frequentemente observada em indivíduos que sofreram desnutrição grave, especialmente durante a primeira infância. Os pesquisadores estão chamando isso de Diabetes Relacionado à Desnutrição (MRD) ou, às vezes, diabetes Tipo 3c. Embora não seja inteiramente novo a nível mundial, a sua prevalência e impacto em África estão a tornar-se cada vez mais evidentes.
“Imagine uma criança que sobrevive à desnutrição aguda grave nos seus anos de formação”, elabora o Dr. "O pâncreas, crucial para a produção de insulina, pode ter sido permanentemente danificado ou subdesenvolvido. Anos depois, mesmo com uma nutrição melhorada, o corpo luta para regular o açúcar no sangue, levando ao diabetes. É um legado trágico de insegurança alimentar."
Um estudo publicado no *The Journal of Global Health Perspectives* em Fevereiro de 2024, da autoria de investigadores da Universidade de Ibadan e Médicos Sem Fronteiras, documentou um conjunto significativo destes casos em regiões rurais do norte da Nigéria e partes da República Democrática do Congo. Esses pacientes, geralmente adultos jovens na faixa dos 20 e 30 anos, apresentam sintomas graves, mas não se enquadram no perfil autoimune típico do Tipo 1 ou no padrão ligado à obesidade do Tipo 2. O seu diagnóstico é muitas vezes tardio, levando a complicações graves como insuficiência renal, cegueira e amputações.
Barreiras aos cuidados de saúde: um ciclo de sofrimento não diagnosticado
O desafio é agravado pelos já sobrecarregados sistemas de saúde do continente. Em muitas zonas rurais, o rastreio básico da diabetes – um simples teste de glicemia – é praticamente inexistente. Mesmo quando disponível, o custo do diagnóstico e do tratamento contínuo é proibitivo para a maioria.
Em Kisumu, no Quénia, Sarah Njeri, uma mãe de três filhos, de 34 anos, perdeu recentemente o pé esquerdo devido a complicações da diabetes. “Eu me sentia cansada o tempo todo, minha visão estava embaçada, mas pensei que era o trabalho árduo de buscar água e cultivar”, ela conta em sua cama no Hospital Universitário e de Referência Jaramogi Oginga Odinga. “Quando consegui pagar a passagem de ônibus para a clínica e fazer um exame, já era tarde demais para o meu pé.” A história de Sarah é uma ilustração nítida dos diagnósticos tardios que são tragicamente comuns.
A insulina, os medicamentos orais e o equipamento de monitorização regular são muitas vezes escassos ou proibitivamente caros. O fornecimento de insulina para um mês pode custar mais de 50 dólares em alguns países, uma quantia impossível para famílias que vivem com menos de 2 dólares por dia. Além disso, a falta de endocrinologistas especializados e de educadores em diabetes significa que, mesmo quando diagnosticados, os pacientes recebem educação inadequada sobre a gestão da sua condição, levando a uma fraca adesão e a um agravamento dos resultados de saúde.
Apelos urgentes para estratégias de saúde integradas
Abordar a crescente crise da diabetes em África requer uma abordagem multifacetada que integre os cuidados da diabetes nos cuidados de saúde primários, dê prioridade à segurança nutricional e garanta a acessibilidade dos medicamentos essenciais. Organizações como o Fundo Africano de Resiliência para a Saúde, lançado em 2023, defendem um maior investimento em ferramentas de diagnóstico, formação para profissionais de saúde e acesso subsidiado à insulina e outros tratamentos vitais.
“Não podemos continuar a tratar a diabetes como um problema autónomo ou como um 'problema do mundo rico'”, afirma o Dr. "Precisa de ser integrado nos nossos programas de saúde materno-infantil, nas nossas iniciativas de nutrição e na nossa vigilância de doenças infecciosas. Só então poderemos esperar conter esta maré e evitar que uma geração sucumba a uma doença evitável e controlável." A luta contra a diabetes em África não é apenas um desafio médico; é um imperativo de desenvolvimento que exige atenção global e acção local concertada.






